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    O "EU" PÓS-MODERNO

    Ensaio sobre a Consistência Qualitativa do Self na Pós-Modernidade


    (The postmodern Self - Essay on the Qualitative Consistency of the Self in Postmodernity)


    ©2018 Eduardo Galvani



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    RESUMO: Com base em referenciais teóricos do humanismo clássico, noções da psicologia moderna sobre o conceito de identidade e concepções filosóficas contemporâneas que interpretam a pós-modernidade enquanto uma condição histórica, neste ensaio proponho analisar influências dos aspectos essenciais da condição pós-moderna sobre o desenvolvimento e as dinâmicas do “Eu” (Self).

    Palavras-chave: Eu, Pós-Modernidade, Indivíduo, Identidade. 



    ABSTRACT: From theoretical references of classical humanism, notions of contemporary psychology about the concept of identity and contemporary philosophical conceptions which interpret postmodernity as a historical condition, in this essay I propose to analyze influences of the essential aspects of the postmodern condition on the development and the dynamics of the ‘Self’.


    KEY WORDS: Self, Postmodernity, Individual, Identity.




    O agregado é maior do que a soma de suas partes porque a combinação das partes não é uma simples adição mas é da natureza da multiplicação ou do fracionamento, ou da criação de um produto lógico: um momentâneo vislumbre de esclarecimento. […] A Informação consta de diferenças que formam uma diferença.

    (Gergory Bateson)





    "Postmodern Self" © 2018 Eduardo Galvani



    Se as vertentes filosóficas que se ocupam de estudar a história da Consciência Humana derivam do Antropocentrismo da Antiguidade Clássica, perpassam o Humanismo Renascentista e o Iluminismo para então convergirem na consolidação daquilo que hoje entendemos por "Indivíduo Moderno", seria então a condição pós-moderna a causa da origem (ou o resultado da ação) do indivíduo pós-moderno? Mas o que é a condição pós-moderna? E o que caracteriza o indivíduo pós-moderno? Estas são algumas das questões com as quais nos preocuparemos neste texto, iniciando por tentar compreender a noção de “Indivíduo” a partir daquele que consideramos seu elemento constitutivo fundamental: o Self.


    Um dos pressupostos básicos da filosofia humanista é a compreensão da distinção entre a dimensão individual (particular) e a dimensão coletiva (pública) da vida e da experiência humanas, e a identidade humana também constitui-se a partir destas duas dimensões: uma pessoal e outra social. Na concepção do sociólogo estadunidense Erving Goffman, todo indivíduo(1) é um “personagem da vida real” que atua na sociedade em correlação a outros indivíduos — os quais além de interagirem com ele na condição de outros “personagens da vida real”, constituem também uma “platéia” que contempla e avalia suas ações. Com base nestes pressupostos, em “A Representação do Eu na Vida Cotidiana”, Goffman propõe então analisar a ideia de representação do papel social, porém não apenas a partir da perspectiva da “platéia” ou da estrutura da “cena” que sustentam as representações do “Eu” enquanto personagem da vida real — ou da visão de um indivíduo que observa e orienta-se a partir das percepções e ações de outros indivíduos —, mas também (e principalmente) a partir da perspectiva das crenças do próprio indivíduo (do Self) na impressão de realidade que, enquanto “ator social”, julga transmitir aos outros indivíduos com os quais se relaciona. Tal compreensão diferencia-se assim das noções de “identidade social”, “identidade fractal”(2) ou “estereótipo”(3), constituídas a partir do ponto de vista da coletividade sobre o indivíduo, mas concilia-se com as noções do filósofo estadunidense William James, que diferencia o “I” (enquanto o “Eu” conhecedor da realidade, do mundo e dos outros indivíduos) do “Self” (enquanto o “Eu mesmo” que consiste naquilo que cada indivíduo acredita ou conhece sobre si próprio). Esta mesma noção assemelha-se também com a famosa concepção do suíço Carl Gustav Jung — considerado fundador da Psicologia Analítica —, para quem o Self representa uma espécie de arquétipo central ordenador de todos os processos psíquicos — conscientes e inconscientes — da totalidade da individualidade que atribui estabilidade à personalidade humana. Este mesmo Self é ainda aquela entidade que as técnicas budistas e hinduístas de meditação objetivam suprimir por alguns momentos em uma etapa do processo de desenvolvimento mental que visa auxiliar os indivíduos a “verem-se ausentes ou distantes do seu próprio eu” para que assim, a partir de uma visão externa ou outsider, possam ampliar o conhecimento que têm sobre si mesmo.


    Para tentar compreender o “Self” ou “Eu” pós-moderno, teremos por base neste ensaio a noção de “consistência qualitativa do Self”, que deriva assim da “qualidade”, ou, em outras palavras, da “intensidade da coerência” entre o Self (o “Eu mesmo”) e suas próprias lógicas de configurações e representações sociais, variando conforme a integridade do nexo (ou lastro) constituído entre as impressões (a “fachada”) que o indivíduo portador de tal Self transmite e/ou julga transmitir de si mesmo, e as crenças e convicções que tem sobre si mesmo — as quais o legitimam ao transmitir tais impressões. O conceito de consistência qualitativa do Self é portanto atribuído neste texto em uma concepção ausente de qualquer valoração moral, pois a ideia de qualidade expressa aqui refere-se apenas aos aspectos constitutivos e absolutos de cada Self, mas não aos eventuais valores relativos que se pode atribuir a cada Self em cada contexto sócio-cultural.


    Assim, considerando também o entendimento de Goffman de que “movimentos” são padrões de práticas interacionais adotadas pelos indivíduos em diferentes situações ou contextos sociais, e que estes “movimentos” enquanto marcas distintivas de interação tornam-se portanto elementos constitutivos fundamentais da identidade — tanto do “papel social” quanto do próprio Self de cada indivíduo —, neste ensaio iremos analisar de que maneiras alguns aspectos da condição social pós-moderna, ao influenciarem diretamente a dinâmica destes “movimentos”, podem promover eventuais variações (ou impressões de variações) na consistência qualitativa do Self, as quais, em nosso entendimento, estabelecem as pré-condições para a estruturação daquilo que entendemos por “Indivíduo pós-moderno”.

    A CONSTITUIÇÃO DO SELF

    Antes de iniciar a análise propriamente dita sobre os elementos e processos que influenciam na constituição do Self, talvez seja pertinente enfatizar que a consistência qualitativa do Self proposta neste texto refere-se aos aspectos que atribuem a qualidade enquanto “diferença” aos princípios constitutivos do Self — e exclusivamente inerentes a ele —, propondo assim uma interpretação conceitual objetiva e completamente neutra de possíveis juízos morais acerca dos princípios estruturantes do Self. Entendemos que a atribuição de um valor positivo ou negativo a cada Self é algo relativo à cultura de cada grupo social, ou, em última instância, uma avaliação introspectiva que compete ao próprio indivíduo fazer daquilo que ele espera de si próprio em relação aos contextos de sua experiência. Portanto, em momento algum a intenção neste texto é de atribuir superioridade ou inferioridade moral a algum tipo específico de configuração do Self, mas apenas diferenciá-los conforme suas próprias lógicas constitutivas e de desenvolvimento, para assim tentar entender de que maneiras estas lógicas diferem e podem variar sob a influência de características das condições históricas nas quais elas ocorrem. Esta neutralidade moral proposta na análise pode talvez já parecer óbvia para alguns leitores, e tende a ficar mais clara e evidente em outros momentos do texto, mas é para evitar eventuais interpretações equivocadas desde o início que proponho esta consideração antecipada (em virtude das origens sócio-culturais do Self, para alguns leitores pode ser mesmo mais difícil separar o conceito de Self de suas respectivas atribuições e influências morais).


    Tendo feito as devidas ressalvas, para compreender um pouco melhor a noção de Self, e de onde deriva a ideia de consistência qualitativa do Self, por hora podemos recorrer a uma proposição do próprio Goffman, através da qual, em alusão a um comportamento típico de alguns indivíduos, nos deparamos com aspectos daquela que poderia ser considerada a condição de um Self “qualitativamente inconsistente”, onde o “cinismo” revela-se a principal atitude ou postura comportamental que pode evidenciar eventuais inconsistências qualitativas do Self:



    Quando o indivíduo não crê na sua própria atuação e não se interessa pelo que seu público acredita, podemos chamá-lo de cínico, reservando o termo “sincero” para os que acreditam na impressão criada por sua representação. […] O cínico, com todo o seu descompromisso profissional, pode obter prazeres não-profissionais da sua pantomima, experimentando uma espécie de jubilosa agressão espiritual pelo fato de poder brincar à vontade com alguma coisa que o público deve levar a sério.

    (GOFFMAN, P. 25-26)



    A partir desta proposição, percebemos que o cinismo pode representar uma postura ou maneira comportamental adotada em determinada situação por alguém que eventualmente duvide de si próprio, de algumas de suas capacidades ou daquilo que julgava acreditar e que passou a duvidar a partir de uma circunstância ou experiência recente e reveladora — ou eventualmente por sentir-se “deslocado” em uma situação que não compreende bem, em um contexto com o qual ainda não possui familiaridade alguma: em virtude de uma momentânea incapacidade de compreender plenamente sua própria condição social e/ou lógicas (linguagens) da relação com outros indivíduos em uma determinada situação ou contexto a ele ainda estranhos — no caso de uma viagem a um local exótico, por exemplo. O cinismo configura-se portanto quando o indivíduo ignora tais situações (ou aspectos delas), em vez de assumí-las por completo para então tentar compreender-se inserido e plenamente participante delas. Percebemos assim que, no extremo contrário ao cinismo, a sinceridade torna-se portanto uma característica comportamental ou de caráter capaz de atribuir maior consistência qualitativa ao Self quando, diante de uma destas situações ou contextos estranhos ou constrangedores, o indivíduo busca absorver e assumir para si o máximo possível daquilo que está de fato percebendo e sentindo. Mais adiante veremos porque as fragmentações sócio-culturais de determinadas condições históricas (especialmente a pós-moderna) podem criam circunstâncias que dificultam ao indivíduo a adoção de uma postura plenamente sincera consigo mesmo em determinadas situações. Mas estas são apenas algumas noções iniciais que fundamentam a ideia de variação da consistência qualitativa do Self que nos propomos a compreender melhor através deste ensaio — lembrando novamente de considerar tal noção de consistência qualitativa sempre referente às características constitutivas e internas do próprio Self, portanto desvinculada de atribuições de juízos morais.


    Para ampliar um pouco o entendimento sobre a própria noção de Self, proponho agora analisar um outro trecho do texto de Goffman no qual o autor cita (e parece concordar) com a concepção do sociólogo estadunidense Robert Erza Park — hoje considerado um dos teóricos mais representativos da Escola Sociológica de Chicago:



    Não é provavelmente um mero acidente histórico que a palavra “pessoa”, em sua acepção primeira, queria dizer máscara. […] Em certo sentido, e na medida em que esta máscara é o nosso mais verdadeiro “Eu”, aquilo que gostaríamos de ser. Ao final a concepção que temos de nosso papel torna-se uma segunda natureza e parte integral de nossa personalidade. Entramos no mundo como indivíduos, adquirimos um caráter e nos tornamos pessoas.

    (GOFFMAN, P. 27)


    Esta noção de Erza Park sobre o conceito de “pessoa” condiz com os estudos antropológicos de Marcel Mauss(4), e compara o “Eu” a uma ideia de “pessoa” enquanto “segunda natureza” formada a partir do ponto de vista da crença que cada indivíduo tem sobre o próprio papel social que desempenha. Em um outro texto entitulado “Entrelaçamentos Simbólicos e a Noção de Identidade” apresento também uma análise mais extensa sobre aspectos relativos ao desenvolvimento da noção do “Eu” (o Self) a partir de algumas noções da Filosofia, da Sociologia e Antropologia. Tal análise pode ajudar a ampliar ainda mais a compreensão sobre aquilo que entendemos por Self. Entretanto, apesar da complexidade do assunto, na intenção de manter o mais simples possível este presente ensaio, manterei aqui as referências acerca do Self mais pautadas nos próprios fundamentos teóricos de Goffman, os quais até certo ponto baseiam-se nos mesmos pressupostos do referido texto e apresentam também alguns elementos teóricos interessantes acerca da interação social que nos permitem analisar bem a condição e as dinâmicas do Self na realidade pós-moderna — o foco central desta análise.


    Assim, alguns destes elementos conceituais que Goffman apresenta em sua análise — e que contribuem para a compreensão das dinâmicas do Self na pós modernidade — referem-se a nuances subjetivas e comportamentais das interações interpessoais que variam conforme os indivíduos e as situações sociais onde tais interações ocorrem. A distinção entre “comunicação tradicional” e “comunicação involuntária” é um destes elementos conceituais fundamentais apresentados por Goffman, por evidenciar diferentes dimensões do comportamento humano de onde podem emergir distintas interpretações e significados. Sobre isto, Goffman sugere o seguinte:

    A expressividade do indivíduo (e, portanto, sua capacidade de dar impressão) parece envolver duas espécies radicalmente diferentes de atividade significativa: a expressão que ele transmite e a expressão que emite. A primeira abrange os símbolos verbais, ou seus substitutos, que ele usa propositadamente e tão-só para veicular a informação que ele e os outros sabem estar ligada a esses símbolos. […] A segunda inclui uma ampla gama de ações, que os outros podem considerar sintomáticas do ator, deduzindo-se que a ação foi levada a efeito por outras razões diferentes da informação assim transmitida.

    (GOFFMAN, P. 12)



    Outras considerações importantes de Goffman referem-se à “definição da situação interacional”, talvez um dos princípios mais fundamentais analisados por Goffman acerca das interações sociais considerando aquilo que nos dispomos a analisar neste ensaio, pois as definições das situações interacionais também podem variar conforme a condição do contexto histórico, social ou discursivo na qual tal situação ocorre. Sobre isto, Goffman afirma que, para toda interação social ocorre sempre uma “pré-definição da situação” na qual a interação, a comunicação ou o diálogo possam fluir:

    Dado o fato de o indivíduo efetivamente projetar uma definição da situação quando chega à presença dos outros, podemos supor que venham a ocorrer, durante a interação, fatos que contradigam, desacreditem ou, de qualquer outro modo, lancem dúvidas sobre esta projeção. […] Ao acentuar o fato de que a definição inicial da situação projetada por um indivíduo tende a fornecer um plano para a atividade cooperativa que se segue — ao acentuar este ponto de vista da ação — não devemos passar por cima do fato essencial de que qualquer definição projetada da situação tem também um caráter próprio.

    (GOFFMAN, P. 20-21)



    Apesar de que o “caráter próprio” de cada situação interacional derive do fato de que toda interação social é um fenômeno coletivo (e por isso complexo e imprevisível), considerando as “projeções individuais” enquanto requisitos básicos para que ocorra tanto a definição da “situação interacional” quanto o “consenso operacional” estabelecido em torno dela por aqueles que em tal situação interagem, a sensibilidade estética (capacidades corporais perceptivas), a memória e a racionalidade (capacidades subjetivas e cognitivas) mostram-se elementos fundamentais deste processo interacional, por permitirem que os indivíduos recorram a condições fisiológicas, conhecimentos e aprendizados adquiridos em experiências prévias que lhes conferem as habilidades de discernir melhor as características que regem tal situação, e assim assumirem uma postura mais adequada à ela. Assim, indivíduos semelhantes em condições fisiológicas de percepção, de conhecimento prévio do contexto e de histórico de experiências sócio-culturais, podem ter maior facilidade de interação: um varredor de rua que quiser dialogar sobre assuntos aleatórios com um cirurgião médico desconhecido no meio da praça, possivelmente terá mais dificuldades para isso do que se quiser dialogar com o mesmo médico, sobre os mesmos assuntos aleatórios, em uma situação interacional que ocorra no contexto da uma consulta e dentro de um hospital, por exemplo. Além de a primeira hipótese (a conversa na praça) ser bem menos provável de ocorrer, é bem plausível também que a conversa flua de modos bastante distintos dependendo do ambiente da interação. Deste modo, não apenas o domínio dos assuntos em si, mas o nível maior de consciência sobre a situação interacional pode também favorecer as capacidades expressivas e comunicativas de um determinado indivíduo — enquanto um nível menor de consciência sobre tal situação pode coibir tais capacidades de outro. Sobre isto, é interessante ainda considerar uma outra proposição de Goffman: de que um “relacionamento social” configura-se quando um indivíduo utiliza o mesmo “movimento” (padrão de interação) com um mesmo público em diferentes contextos ou ocasiões (situações interacionais).


    Tais noções elaboradas por Goffman nos permitem então compreender que, além das condições externas ao indivíduo, as experiências prévias e as capacidades perceptivas e cognitivas de tal indivíduo também são fundamentais para orientá-lo nas situações interacionais, nas suas expressões e ações comunicativas (tradicionais ou involuntárias), e assim podem influenciar nos aspectos do desenvolvimento, das dinâmicas e, consequentemente, na consistência qualitativa do seu Self. Entretanto, outros aspectos da correspondência entre as condições externas, as capacidades individuais e o conjunto de processos interacionais que relacionam tais dimensões e influenciam nos processos de constituição do Self podem ser ainda melhor compreendidos quando entendemos o desenvolvimento mental do indivíduo a partir das concepções que o antropólogo Gregory Bateson apresenta em “Mente e Natureza - Uma Unidade Necessária” — tais concepções serão consideradas logo adiante neste ensaio, em um momento mais adequado para elas no capítulo “O Self na Pós-Modernidade”.


    Agora que compreendemos alguns dos principais elementos da constituição do Self — considerando exemplos básicos do modo com que estes elementos se interrelacionam e atuam —, vamos investigar algumas concepções sobre a ideia de “pós-modernidade”, para em seguida analisar tais dinâmicas do Self relacionadas com esta concepção de realidade.



    A PÓS-MODERNIDADE

    Nas ditas “humanidades” (Filosofia, Antropologia, Sociologia, Psicologia, História e outras Ciências Humanas), existem hoje inúmeras concepções que nos ajudam a compreender aquilo que configura a condição pós-moderna. Entretanto, a ideia de que a pós-modernidade trata-se de uma “condição histórica” é talvez uma das mais prestigiadas, e é esta que orientará aqui nossa interpretação de tal conceito. Em “A Condição Pós-Moderna”, ao comparar a incidência (e a intensidade) de tendências estéticas com as respectivas situações econômicas na sociedade norte-americana, o filósofo e geógrafo britânico David Harvey demonstra o modo com que as correlações entre estas dimensões sócio-culturais podem moldar a condição histórica em um determinado tempo-espaço da vida humana. Para Harvey, se a narrativa central da condição cultural e histórica da humanidade (desde o seu surgimento até a época moderna) caracteriza-se por uma sucessão de estágios de super-acumulação econômica que estimulam a redução da associação entre conhecimentos científicos e juízo moral, a pós-modernidade consiste então no período histórico que tem por condição primordial o entrelaçamento de um conjunto de aspectos econômicos e sociais capazes de promover intensamente a efemeridade e a fragmentação de valores culturais, e, consequentemente, também uma ruptura constante entre as dimensões ética-moral e científico-estética. Assim, ao demonstrar que as condições históricas de cada contexto são estabelecidas a partir dos fluxos da experiência humana, e que as práticas estéticas e culturais em cada local acompanham a dinâmica destes fluxos, Harvey apresenta os pressupostos sobre os quais descreve o que acredita ser a “condição pós-moderna” — a partir da qual, de acordo com ele, a popularização das tecnologias de produção, edição e reprodução de imagens tornam-se preponderantes e fundamentais nas relações sócio-culturais.

    "As práticas estéticas e culturais têm particular suscetibilidade à experiência cambiante do espaço e do tempo exatamente por envolverem a construção de representações e artefatos espaciais a partir do fluxo da experiência humana. Elas sempre servem de intermediário entre o Ser e o Vir-a-Ser. […] A crise de superacumulação iniciada no final dos anos 60, e que chegou ao auge em 1973, gerou exatamente esse resultado. A experiência do tempo e do espaço se transformou, a confiança na associação entre juízos científicos e morais ruiu, a estética triunfou sobre a ética como foco primário de preocupação intelectual e social, as imagens dominaram as narrativas, a efemeridade e a fragmentação assumiram precedência sobre verdades eternas e sobre a política unificada, e as explicações deixaram o âmbito dos fundamentos materiais e político-econômicos e passaram para a consideração de práticas políticas e culturais autônomas."

    HARVEY (P. 293)

    Estas descrições de Harvey ilustram bem aquilo que considera-se a pós-modernidade, mas talvez possamos ter um entendimento ainda mais efetivo — e até mesmo mais sensorial — da condição pós-moderna a partir de uma expressão cinematográfica interessante, mais contemporânea, mas que coincide bastante com estas concepções de Harvey, representada no filme Ghost in the Shell (5) — que apesar de tratar-se de uma obra de ficção com projeção futurista, sugere experiências que bastante se assemelham com aspectos descritos por David Harvey: especialmente a fragmentação cultural e a preponderância das imagens sobre as relações sociais. Ali, no contexto do filme, grandes centros urbanos permeados por enormes imagens em projeções holográficas criam espaços de convivência tão densos de informação e estímulos visuais culturais que podem afligir os mais claustrofóbicos. Nas ruas e em outros espaços públicos, elementos físicos e virtuais aparecem constantemente obliterados, de modo que a coexistência e a experiência individual humanas tornam-se saturadas pela polifonia e pelas meta-narrativas das mensagens publicitárias de origens comerciais ou governamentais. Mas além da prevalência das imagens e da intensa fragmentação cultural, outro importante aspecto pós-moderno do contexto tecnológico de Ghost in the Shell — e que bastante nos interessa para esta análise —, é a possibilidade de transferência das memórias de um indivíduo humano para qualquer corpo cibernético pós-humano: tal aspecto representa o predomínio da estética sobre a ética. E é exatamente este aspecto que pode revelar uma pré-condição fundamental daquilo que nos propomos a entender aqui: a instabilidade, ou a baixa consistência qualitativa do Self na condição pós-moderna estaria hoje vinculada ao fato de que tal condição pode ser comparada à possibilidade de transferência da identidade humana através de partes da nossa memória identitária para os “avatares” ou “corpos virtuais” que cada indivíduo pode controlar (configurar e editar) nas atuais plataformas sociais digitais? Pois apesar de que tal tecnologia apresentada na realidade futurista de Ghost in the Shell pressuponha a possibilidade de transferência da memória humana “quase completa e inalterada” para qualquer corpo físico de um ciborgue ainda hoje nos pareça algo distante e impossível, o “multiverso digital” acessível pela Internet com suas inúmeras plataformas permeadas de “perfis” e “avatares virtuais” já é uma realidade, e tal condição, aliás, exerce ampla influência cultural para a configuração da condição pós-moderna nas sociedades contemporâneas onde tais tecnologias são acessíveis, de modo que ao promoverem e ampliarem a fragmentação e a efemeridade das relações humanas e dos valores culturais compartilhados através destas plataformas, potencializam ainda mais as influências de uma condição pós-moderna, na qual a “cena” e a “platéia” que estruturam e orientam o desenvolvimento do Self tornam-se então provenientes de fluxos globais ubíquos e altamente diversos, culturalmente distintos, intensos e constantes, dependentes de imagens e informações que as tornam amplamente transitórias e fragmentadas, possibilitando assim que tais níveis de transitoriedade e fragmentação influenciem, afinal, na constituição do Self daqueles indivíduos que expressam-se e relacionam-se através de tais plataformas.


    Para avaliar melhor as equivalências destas condições (de transferência da memória identitária a um corpo físico cibernético e de transferência de aspectos identitários para plataformas digitais sociais), podemos pensar sobre os efeitos dos avatares digitais e “corpos virtuais” para os quais transferimos aspectos identitários a partir das experiências cotidianas nas redes sociais digitais: todas as formas de expressão ali compartilhadas (textos, links, imagens, fotografias, vídeos, etc…) transmitem para a “memória digital” da plataforma (e sua respectiva audiência) aspectos identitários com os quais nos identificamos, e se tais aspectos participam assim da constituição da nossa Identidade Social, também podem influenciar na construção do nosso Self. Algumas plataformas potencializam ainda mais este efeito: é o caso dos videogames e simuladores digitais de experiências sociais virtuais. Talvez a forma mais emblemática desta modalidade de experiência seja a plataforma digital Second Life (2003), que permite aos participantes (denominados “residentes”) desenvolverem de fato uma vida paralela bastante complexa no ambiente virtual que tal plataforma emula, incluindo a possibilidade de construção detalhada de um corpo virtual complexo e dinâmico (personagem/avatar) com o qual o participante interage, se identifica e é identificado naquele ambiente, além da aquisição de imóveis, a troca e o comércio de bens, e etc.

    Considerando desta maneira o artifício da realidade virtual enquanto elemento amplificador da condição pós-moderna, podemos considerar também o enredo do filme Jogador No1 (2018), uma outra projeção futurista que, apesar de fictícia, traz aspectos bastante plausíveis do ponto de vista da evolução tecnológica que exemplificam bem esta mesma experiência e ainda a eleva a uma outra potência. Com uma narrativa fictícia situada no futuro, onde a humanidade divide seu tempo de existência entre o “mundo físico real” e a realidade virtual, o filme também representa inúmeros elementos típicos daquela que consideramos a “condição pós-moderna”: uma plataforma virtual chamada de OASIS é considerada a principal fonte de “riquezas” e onde a grande maioria das interações humanas se desenvolvem: o tempo de permanência e o desempenho nos “jogos” oferecidos pela plataforma OASIS podem render dividendos para garantir também a existência e até melhorar a condição social dos indivíduos no mundo real. Acessórios cibernéticos que conectam os sentidos corporais com maior amplitude sensorial ao ambiente virtual de OASIS são valorizados por permitirem experiências mais amplas e performances mais vantajosas nos jogos da plataforma. Assim, consideradas as características essenciais da pós-modernidade, o ambiente virtual onde se interrelacionam as múltiplas redes de jogadores na história de Jogador No1 é um ambiente pós-moderno por excelência: além da compressão do espaço-tempo ao limite extremo (não existem restrições espaciais: com um simples comando é possível desaparecer e aparecer de forma imediata em qualquer lugar do multiverso virtual ali representado), e ainda que o “tempo virtual” dos personagens esteja relativamente condicionado ao tempo que cada jogador tem disponível no “mundo real”, dentro dos ambientes virtuais de OASIS as narrativas temporais são altamente fragmentadas e não-lineares (no sentido cartesiano do termo), pois seguem a lógica “quântica” e transitória da arquitetura, do cotidiano e da espacialidade da estrutura social (cenários) ali desenvolvidos, os quais não obedecem necessariamente a mesma lógica “cartesiana” de desenvolvimento das estruturas das cidades físicas reais. Além disso, o fato de que cada participante pode criar e editar indiscriminadamente seu avatar/personagem digital de forma bastante distinta de sua aparência humana real, evidencia também a ampla importância e influência das imagens nas relações ali desenvolvidas.


    Alguns aspectos da realidade apresentada pelo filme Jogador No1 parecem de fato um pouco distantes, mas quando comparamos alguns detalhes do seu contexto com a realidade atual de algumas sociedades, entendemos que uma experiência bastante semelhante já é reproduzida através das principais plataformas ou redes sociais digitais hoje existentes. Pois se a plataforma Second Life e outros “jogos” online exercem uma influência limitada sobre as relações sociais, isto não exclui o fato de haver hoje uma ampla integração social global através de outros meios digitais, que apesar de utilizarem diferentes recursos estéticos — considerando principalmente a restrição de simulações audiovisuais tridimensionais e das animações dinâmicas de avatares/personagens —, os instrumentos tecnológicos e digitais atuais (Internet, câmeras fotográficas e cinematográficas, softwares de criação, edição e tratamento de imagens e vídeos, etc.) favorecem a interação humana através do uso deliberado de imagens (fotos, vídeos, avatares, ícones, emojis, etc.), a instantaneidade das mensagens eletrônicas promove a compressão do espaço-tempo e a liberdade de construção das narrativas resulta em uma fragmentação sócio-cultural — tais aspectos técnico-estéticos conferem a estas “situações interacionais” as características pós-modernas que influenciam diretamente no desenvolvimento do Self dos indivíduos que vivenciam tais experiências.



    O SELF NA PÓS-MODERNIDADE

    No capítulo anterior investigamos aspectos que configuram a pós-modernidade enquanto “condição histórica”, e também analisamos alguns fatores de tal condição que podem influenciar as dinâmicas constitutivas e, consequentemente, a consistência qualitativa do Self. Entendemos também que a identidade individual enquanto singularidade humana, tão exaltada em Ghost in the Shell”, “Second Life” e “Jogador No1”, apenas pode constituir-se das relações com o “outro”, e consiste, portanto, na própria identidade enquanto “diferença” formada a partir de outras diferenças. Assim, com base na concepção de pós-modernidade enquanto condição histórica, conforme descrita por David Harvey, considerando ainda todos os aspectos potencializadores de tal condição (tais quais exemplificados a partir das expressões artísticas dos filmes e plataformas digitais citados), e presumindo que a noção de “estrutura mental” corresponde às capacidades psico-cognitivas e ao nível de consciência de cada indivíduo (sobre si mesmo e sobre a realidade externa a si), compreendemos que a estrutura mental de um indivíduo situado em uma condição histórica pós-moderna lida com modalidades e fluxos de informação explicitamente mais complexos do que a estrutura mental de outro indivíduo situado em uma condição histórica primitiva, antiga ou mesmo moderna, nas quais os eventuais limites cartesianos das expressões e percepções estéticas no espaço-tempo favorecem experiências objetivo-subjetivas mais lentas, ininterruptas e lineares do que as experiências possíveis de serem vividas em uma condição pós-moderna.


    Podemos presumir então que se o Self é constituído por aquilo que as experiências sociais do indivíduo — e as percepções e interpretações de tais experiências pela sua estrutura mental — o capacitam a crer de si mesmo (o “ator” social de Goffman), e baseia-se no mesmo princípio de diferença — na medida em que suas crenças formam aquilo que o diferenciam “de tudo aquilo que ele não é” e também dos “outros” indivíduos —, as dinâmicas constitutivas do Self na pós-modernidade são portanto influenciadas pelas dinâmicas mentais do indivíduo em tal condição. Um bom exemplo para nos ajudar a distinguir e compreender melhor a variação nas dinâmicas das influências destas diferentes condições: se em uma determinada cena de uma peça teatral o ator/personagem protagonista passa caminhando de um lado a outro do tablado (palco), e durante a travessia precisa interagir de improviso com apenas 1 outro ator/personagem e 1 objeto cenográfico, sua experiência objetivo-subjetiva durante esta travessia será certamente mais serena, concisa, linear e não-fragmentada do que se durante a mesma caminhada pelo tablado encontrar 30 outros atores/personagens e mais 20 objetos de cena que tiver que “perceber” ou, eventualmente, interagir.



    "O “Eu”, portanto, como um personagem representado, não é uma coisa orgânica, que tem uma localização definida, cujo destino fundamental é nascer, crescer e morrer; é um efeito dramático, que surge difusamente de uma cena apresentada, e a questão característica, o interesse primordial, está em saber se será acreditado ou desacreditado."

    (GOFFMAN, p. 230)


    Estes vínculos entre a estrutura mental e a condição histórica do indivíduo podem ser melhor avaliados e compreendidos pela perspectiva de “Mente e Natureza: Uma União Necessária”, do antropólogo Gregory Bateson. O princípio pelo qual o autor sugere tal compreensão é exatamente o da “diferença”, e ao pressupor os aspectos que diferenciam e conectam o “ser” ao “ambiente” (enquanto condição histórica) no qual está inserido, Bateson explica o seguinte:


    "Estamos discutindo um mundo de significado, onde detalhes e diferenças fazem representar-se nas relações entre outras partes desse mundo total. […] Uma ideia não tem localização no tempo e no espaço, apenas, talvez, numa ideia de tempo ou espaço. Temos então o conceito de “energia”. […] Uma definição afirma que a energia é da mesma ordem de abstração que a matéria; que ambas são de certa forma substâncias e que são mutuamente conversíveis uma na outra. Entretanto, a “diferença” é precisamente a não substância. […] Naturalmente, a “diferença”, que é normalmente uma razão entre similares, não tem dimensões, ela é qualitativa, e não quantitativa."

    (BATESON P. 108)


    Assim, além de demonstrar que a diferença é uma atribuição qualitativa — e não substantiva —, ou “uma não-substância gerada por estímulo”, quando propõe que “os eventos que não existem são diferentes daqueles que poderiam ter existido, e os eventos que não existem, certamente não contribuem com energia.” (BATESON p. 109), Bateson sugere que as diferenças latentes mas não efetivas “não fazem diferença” afinal, exemplificando assim o inevitável vínculo da estrutura mental do indivíduo (e do seu Self) com o seu próprio corpo no qual sua mente foi constituída, pois ao afirmar que os eventos que poderiam ter existido tornam-se uma forma de estímulo mental apenas na medida em que são considerados pela própria mente (enquanto hipóteses ou ideias), situa assim a estrutura mental a uma condição intrínseca aos estímulos do corpo que a possui, logo, intrínseca também à própria realidade (condição histórica) na qual tal corpo está inserido. Tais pressupostos nos permitem assim elaborar uma noção na qual a mente — e o Self inerente à ela — podem constituir-se a partir da mutualidade entre duas dimensões distintas e interdependentes de estímulos: uma qualitativa (“consciente”, “metafísica”, ou “das ideias”), e a outra quantitativa, das vivências e percepções objetivas, sensíveis, intuitivas e imediatas que se tem do ambiente, experimentadas através de todo e qualquer estímulo energético e sensorial recebido pelo corpo ao qual a mente está vinculada.


    Podemos entender ainda melhor os vínculos entre “mente, corpo e natureza” a partir de outro trecho do texto de Bateson, onde o autor sugere que os processos mentais e o próprio corpo humano não existem sem energia e estímulos externos, logo, tais estímulos e mesmo as abstrações da mente humana dependem das capacidades sensoriais do próprio corpo humano. "Na vida e em seus assuntos, existem tipicamente dois sistemas energéticos em interdependência. […] A combinação dos dois sistemas (o mecanismo de decisão e a fonte de energia) transforma o relacionamento total em um de mobilidade parcial de cada lado.“” (BATESON p. 111) Isto nos permite entender melhor também a mutualidade das interações entre seres vivos e não vivos, que além de influenciarem a experiência humana em incontáveis níveis e dimensões a todo momento, correspondem assim a um dos princípios básicos do “interacionismo” enquanto atividade indispensável à vida, convenientemente exemplificado em outra frase de Bateson: “O truque que a vida utiliza continuamente, porém raramente com matéria não domesticada, é familiar. […] É o truque da reação em cadeia — para designar alguns exemplos em que o mundo não vivente realmente simula verdadeiramente a vida como um todo.” (BATESON p. 110).


    Entendemos assim que são faculdades memorativas relativamente amplas de conservação de informações capazes de influenciar em ações futuras que finalmente atribuem a uma estrutura mental suas capacidades de armazenar as experiências sociais, culturais e estéticas (sensoriais), de modo que tais “memórias” podem atuar nos processos volitivos ao possibilitarem o encadeamento cognitivo, léxico, racional ou relacional de ideias ou conceitos, e assim a criação de um sentido construtivo do ponto de vista do Self para orientar suas decisões e ações. Desta maneira, entendemos que a “memória” faz-se assim parte constitutiva imprescindível da estrutura mental para possibilitar o desenvolvimento do Self, pois mesmo que a uma estrutura mental primitiva e desprovida de memória (ou com uma forma bastante reduzida de memória, como a dos animais mais simples, por exemplo) seja ainda possível “tomar decisões” para agir em um determinado sentido ou reagir a estímulos externos mais imediatos, as capacidades de aprendizado e aquisição de conhecimentos que instruem a construção da Identidade Social (Simples, Fractal ou Estereotipada) e do Self, apenas são concebíveis quando considera-se tal indivíduo (ser) dotado de uma memória suficientemente capaz de armazenar as vivências e experiências sócio-culturais e estéticas, e de um aparato cognitivo capaz também de relacionar tais memórias neste sentido construtivo da identidade do “ator/personagem” (o próprio ser e o seu Self). Ralph Waldo Gérard, prestigiado neurofisiologista norte-americano e fundador da “Society for Neuroscience”, descreve o funcionamento da memória da seguinte maneira:

    Tudo não termina quando um impulso passa através de uma sinapse e vai até seu destino. Tal impulso deixa para trás ondulações no estado do sistema. Fato pelo qual um impulso posterior pode, assim, ser pelo menos um pouco influenciado pela história passada dos neurônios envolvidos nos impulsos anteriores. […] Circuitos reverberantes, em princípio, podem durar indefinidamente, mas na prática sua duração é duvidosa. […] Talvez haja uma memória ativa de curta duração, dependendo dos circuitos, e uma estática. (GÉRARD. P. 106)

    Para compreender ainda um pouco melhor o modo com que os processos mentais humanos utilizam a memória para a formação das identidades a partir da percepção, interpretação e memorização das próprias experiências, podemos recorrer às atuais formas de classificação(6) biológica e psicológica dos diferentes tipos básicos da memória individual humana, os quais subdividem-se nos grandes grupos das “Memórias Implícitas” e “Memórias Explícitas”: as Memórias Implícitas estão classificadas em “Perceptiva”, “Preparatória” e “Procedimental”, e as Memórias Explícitas em “Semântica”, “Episódica” e “Autobiográfica”. Assim, a memória autobiográfica, enquanto “memória dos eventos particulares dentro da própria vida”(6) — eventualmente considerada equivalente ou uma parte fundamental da Memória Episódica —, é talvez a mais importante no processo de constituição do Self. Então, se a Identidade Social pode ser uma entidade volátil, estereotípica e fragmentada, variando conforme as dinâmicas da “memória coletiva” ou do contexto social na qual se manifesta, a memória individual é portanto o que possibilita que o Self não seja uma entidade imediata ou transitória — que surge e se manifesta apenas durante uma relação social específica para em seguida extinguir-se ou transformar-se de forma independente do indivíduo que lhe atribui as qualidades e a substância. A memória individual (considerando todas aquelas formas de manifestação e classificação que mencionamos) é exatamente o que permite ao Self constituir-se uma entidade estrutural, cumulativa e permanente do ponto de vista do indivíduo que o constitui. Em que medida estas dimensões individuais da memória (com origem nas experiências imanentes) obliteram-se ou vinculam-se em uma relação de interdependência com as dimensões genéticas (orgânicas com origem hereditária) é ainda uma questão difícil em estudo pela neuro-psicologia e pela neuro-biologia(7).

    É possível ainda aprofundar um pouco mais o entendimento sobre o funcionamento da memória humana e sua importância para a estruturação do Self com base nas proposições apresentadas pelo psicólogo russo Lev Vygotsky em “A Formação Social da Mente” — onde investiga as influências da memória no aprendizado e na construção de conhecimentos. Nas teorias de Psicologia Sócio-Histórica que elaborou acerca dos processos de memorização e aprendizagem, Vygotsky propôs a distinção de diferentes zonas mentais que atuam durante a aquisição de conhecimentos. Tal distinção, de acordo com Vygotsky, classifica os potenciais de desenvolvimento do aprendizado em Zona de Desenvolvimento Atual (ou real, constituída pelos conhecimentos já consolidados e memorizados pelo indivíduo) e Zona de Desenvolvimento Proximal (ou iminente, constituída pelos conhecimentos possíveis de serem adquiridos a partir dos demais conhecimentos que o indivíduo já tem consolidado em sua memória). Me parece que, por hora, os principais aspectos da memória estão razoavelmente bem compreendidos, ao menos para aquilo que nos propomos a investigar neste texto.


    Entretanto, apesar de que a memória individual constitui-se um aspecto fundamental e imprescindível — embora não exclusivo — de uma mente, qual a sua importância na constituição do Self diante dos outros aspectos mentais? Se a memória individual não é uma pré-condição para a existência da mente — e talvez para algumas funções do organismo não tenha mesmo preponderância sobre alguns outros aspectos dos processos mentais subconscientes —, ainda assim, em virtude dos seus atributos, vimos que ela é de fato considerada preponderante para a constituição da Identidade Individual. Sabemos que algumas das perguntas mais comuns de alguém que sofre de amnésia momentânea são “Onde estou?” e “Quem sou?”. Assim, no intuito de compreender tal fenômeno da consistência qualitativa do Self na pós-modernidade, chegamos a uma questão que parece central para este entendimento: em que medida é possível desvincular a mente (sua memória e o Self por ela constituída) do corpo a partir do qual elas foram concebidas? Em outro trecho do seu texto, Bateson propõe uma analogia entre a torneira que exerce controle sobre o fluxo da água para lembrar que em um sistema composto por um mecanismo de decisão e uma fonte de energia, é a combinação e a interdependência entre eles que “torna o relacionamento total em um de mobilidade parcial de cada lado.”. (BATESON P. 111).


    Assim, para ampliar um pouco mais nossa compreensão sobre de que maneira a interdependência entre corpo, mente e natureza pode influenciar na consistência qualitativa do Self, podemos analisar também alguns outros aspectos técnico-estéticos apresentados no filme Ghost in The Shell. Presumimos que na realidade representada no enredo do filme, a “consistência” ou a “inconsistência” qualitativa do Self podem variar também em relação aos possíveis graus de estranhamento entre o novo corpo cibernético e a antiga memória do cérebro humano ali implantado, pois se consideramos os vínculos existentes entre corpo, a mente e a natureza nos níveis celulares, moleculares ou mesmo atômicos ou subatômicos, compreendemos que a amplitude de estímulos mútuos é infinita e incomensurável (8). Assim, mesmo mantendo essa análise em um nível mais superficial e dentro dos limites do que por hora seja minimamente compreensível, percebemos que além das implicações éticas e morais produzidas pela diferenciação da aparência visual e das capacidades físicas entre o indivíduo e os outros, o estranhamento do indivíduo com relação às novas formas de percepção produzidas pelo seu novo corpo artificial e “aperfeiçoado” pode também alterar suas capacidades básicas de reconhecer e de interpretar os estímulos ambientais e sociais que outros indivíduos já mais naturalizados com tal condição percebem e interpretam com maior intuitividade. Além disso, as eventuais alterações repentinas de contextos sócio-culturais ou simbólicos — possibilitadas pelos deslocamentos mentais virtuais — podem provocar rupturas semânticas entre a identidade e o corpo, provocando na subjetividade do indivíduo (ator/personagem) uma provisória suspensão da crença na sua própria atuação, na medida em que tal indivíduo provido de um novo corpo e/ou de implantes cibernéticos que o permitem transcender as dimensões naturais do espaço-tempo torna-se capaz de experimentar uma variedade de sensações e relações sociais inéditas — e talvez inimagináveis —, estas novas sensações e relações podem promover uma intensa quebra da linearidade de constituição da sua memória, causando por consequência a instabilidade ou a “flutuabilidade” do seu Self diante desta nova realidade que, em um primeiro momento, tende a se apresentar de forma completamente nova, parcial e, eventualmente, até certo ponto, incompreensível. Durante o período de adaptação à tal condição, as etapas de reconhecimento da nova realidade e os novos processos e aprendizado podem limitar, a priori, as dimensões de interação entre a mente do indivíduo e o novo contexto, diminuindo a frequência e a intensidade de criação dos vínculos ou relacionamentos sociais entre o Self e outros indivíduos já familiarizados com tal contexto. Esta eventual desconexão (ou alienação) entre o indivíduo e as “situações interacionais” de um determinado novo contexto pode também criar a falsa impressão de atuação “cínica” do indivíduo.


    Se a singularidade de cada indivíduo humano — constituída pela Identidade Pessoal (Self) e a Identidade Social (estereótipos, fractalidades, etc.) —, consiste na confluência de aspectos físicos (aparência e maneiras manifestas de forma direta pelas dinâmicas da corporalidade) e metafísicos (o temperamento e o caráter que atribui o sentido moral das atitudes e moldam sua personalidade), esta obliteração entre corpo e mente (memória), aparência e identidade, pode representar a principal questão sobre em que medida a consistência qualitativa do Self depende do corpo no qual o Self se desenvolve. Mas é possível atribuir uma medida objetiva e quantificar tal condição de interdependência? Aspectos morais e culturais relativos a cada contexto e situação podem orientar tal compreensão, mas permitem quantificá-la de forma objetiva? O “interesse nas excessões” sugerido por Goffman pode ser aquilo que, no processo mental de Bateson, possibilita a identificação de diferenças e, consequentemente, a formulação ou constituição da própria identidade enquanto diferença de tudo aquilo que não faz parte do próprio “Eu”, ou do Self. Tal fenômeno é qualitativo, e de fato não parece objetivamente quantificável, pois quantas excessões um corpo e uma mente humana são capazes de elaborar e sustentar dentro de uma determinada fração do espaço-tempo? Para responder tal questão, seria necessário estabelecer também os critérios de um “Espaço Identitário” enquanto o mínimo da fragmentação social que permita a estruturação de uma Identidade Social. Ou, em outras palavras, definir os limites de um determinado contexto social onde os indivíduos que ali interagem consigam cada um organizar minimamente sua própria unidade identitária individual. Mas é mais comum que sejamos diferentes em aparência física e parecidos em maneiras, ou diferentes em maneiras e parecidos em aparência? “Além da esperada compatibilidade entre aparência e maneira, esperamos naturalmente certa coerência entre ambiente, aparência e maneira. Tal coerência representa um tipo ideal que nos fornece o meio de estimular nossa atenção e nosso interesse nas excessões.” Goffman (P. 32).


    Portanto, esta coerência entre aparência, maneira e ambiente à qual Goffman se refere, é justamente aquilo que pode representar e/ou atribuir a consistência qualitativa ao Self, e se as dificuldades de avaliação de tal coerência (tanto pela “platéia” quanto pelo próprio indivíduo) elevam-se na medida em que complexificam-se as dimensões e as dinâmicas do contexto de atuação de um indivíduo, a eventual aparente inconsistência qualitativa do Self pode ser de fato apenas momentânea e superficial. Além disso, se as narrativas fragmentadas e não-lineares são características mais evidentes em expressões artísticas (músicas, danças, romances literários, peças teatrais, filmes, videogames, etc.), sabemos que se na condição pós-moderna a fragmentação e a não-linearidade podem incidir mais sobre as modalidades de relações sociais permeadas por manifestações artísticas, estas podem incidir também sobre as relações sociais de produção, econômicas, científicas, e todas as demais relações, as quais também dependem das nossas capacidades mentais cognitivas e interpretativas para realizar a contextualização e a “edição” inequívoca que nos permita encontrar o “nexo conceitual” entre seus conteúdos eventualmente apresentados de modo desconexo ou caótico. Tais fragmentações dependem que sejamos, por exemplo, capazes de relacionar um fato apresentado na primeira cena de um filme com outro apresentado em sua cena final, e desta relação atribuir um significado, um sentido lógico e/ou um valor moral à sua história.

    Da mesma maneira, a sociedade em uma condição pós-moderna permite o deslocamento de valores simbólicos e econômicos de forma contínua, fragmentada e desconexa. Além da ubiquidade possibilitada pelas novas tecnologias de comunicação, os meios de transporte cada vez mais eficientes e acessíveis também contribuem com a globalização e com estilos de vida mais cosmopolitas. Portanto, se a fragmentação — ou a “não-linearidade” — da experiência humana é a característica mais notável da condição pós-moderna, a consistência qualitativa do Self em tal contexto é altamente relativa, flutuante e transitória, depende da capacidade do indivíduo, mesmo diante de uma realidade complexa e fragmentada, perceber os elementos constitutivos do seu próprio Self, e de então estruturá-lo a partir do entrelaçamento simbólico de aspectos identitários em um processo mental introspectivo que afinal atribua coerência e consistência à sua fórmula. Tal capacidade depende completamente das capacidades perceptivas, e principalmente da estrutura psicológica e dos processos mentais — conforme avaliamos até aqui —, mas também prescinde de uma característica alheia aos sentidos corporais e capacidades psico-cognitivas do indivíduo, mas intrínseca aos elementos da realidade externa (o “cenário” e seus “elementos cenográficos”) na qual baseia-se a própria narrativa construtiva do Self: possibilitarem que, em algum sentido, seja possível atribuir lógica e coerência entre esta tal narrativa estruturante do Self e os contextos sócio-culturais onde ela se situa e se desenvolve. Afinal, mesmo o Self com a mais baixa consistência qualitativa (ou com a máxima fragmentação interna) prescinde ainda de um mínimo de integridade psicológica para que lhe seja possível atribuir a condição de Self.



    CONSIDERAÇÕES FINAIS



    Compreendemos assim que se o indivíduo situado em uma condição pós-moderna é estimulado por uma realidade sócio-cultural mais dinâmica e fragmentada, ainda assim tal indivíduo é capaz de unificar internamente sua identidade ao perceber e interpretar os elementos e dinamismos desta realidade a partir das próprias perspectivas subjetivas de constituição do seu Self. Em algumas situações, o indivíduo na condição pós-moderna pode também promover sua própria alienação intencional (similar ao “silenciamento interno” foucaultiano) para abster-se da influência de determinados fenômenos, valores, convenções ou tradições sociais e culturais que não condizem com suas orientações identitárias e, portanto, não lhe despertam interesse para a narrativa constitutiva do seu próprio Self — apesar de que tais aspectos diretamente ignorados pelo indivíduo ainda possam influenciá-lo indiretamente ao refletirem nas dinâmicas da realidade na qual ele está inserido. E, eventualmente, a fragmentação já naturalizada de sua subjetividade (em virtude da origem também fragmentada dos estímulos que recebe desde o seu nascimento) é então estimulada a também manifestar-se em função da nova realidade igualmente fragmentada, mas em um sentido coerente com a narrativa de constituição do seu Self. Compreendemos também que tal constituição promove a integridade do Self a partir do ponto de vista do próprio indivíduo, e que tal integridade, por constituir-se em função das lógicas identitárias subjetivas e pessoais em uma sucessão de “momentâneos vislumbres de esclarecimento”, diferencia-se da noção de integridade psicológica social.

    Talvez uma investigação mais densa sobre a história do Self revele que a concepção comum sobre a lógica constitutiva “não-fragmentada” do Self tenha sido estimulada na modernidade por uma relação semântica vulgar que compara o conceito de consistência qualitativa do Self à famigerada noção da autenticidade de Walter Benjamim — a qual atribui a consistência qualitativa (ou "unicidade") de uma obra de arte em função do conhecimento dos seus vínculos com o tempo e o lugar da sua criação. E se o “gênero” é um aspecto fundamental da constituição da Identidade humana, também é possível aprofundar o estudo sobre a questão do gênero em relação às suas influências na constituição do Self. Até que ponto podemos considerar que os vínculos do desenvolvimento mútuo entre aspectos da corporalidade biológica e da estrutura psicológica do indivíduo estimulam o desenvolvimento de um gênero que esteja diretamente associado com a sua sexualização? Se a filósofa estadunidense Judith Butler atribui ao gênero o status de uma classe fluida e mutável da estrutura identitária, certamente o faz considerando para isto também as influências das fragmentações sócio-culturais da condição pós-moderna, onde o gênero constitui-se não fixado ao binarismo entre sexo masculino e feminino, mas da intersecção de múltiplas características pessoais, culturas e categorizações sociais. Ou podemos ainda ampliar nosso entendimento sobre diferentes formas de influência do gênero na estruturação do Self a partir de um estudo da antropóloga Marilyn Strathern entitulado “O gênero da Dádiva”, onde a pesquisadora britânica desenvolve então uma análise do comportamento de um grupo social da Melanésia e evidencia possíveis deslocamentos de perspectiva que dinamizam sua interpretação do gênero, o qual entre eles pode ser atribuído não de forma permanente, rígida ou inflexível à Identidade Social ou ao Self do indivíduo, mas variando em relação às suas posições ou papéis sociais assumidos em cada relação, ou relativos à natureza das eventuais “dádivas” trocadas em cada interação.


    As dinâmicas inerentes a cada contexto e as alternâncias contextuais mostram-se assim bastante influentes na consistência qualitativa do Self, mas convém ainda salientar também a importância de cada dimensão (objetiva e subjetiva) — ou das perspectivas — de onde parte e/ou de onde se situa a compreensão do indivíduo acerca da constituição do seu próprio Self. É possível pensar este aspecto contextual da estruturação do Self a partir dos filmes Ghost in the Shell e Jogador No 1, que apresentam duas realidades distintas entre si: Enquanto Ghost in the Shell exprime a possibilidade de transmissão integral da memória individual de um corpo humano natural para um corpo antropomórfico artificial (ou um corpo orgânico natural modificado), e onde tais corpos cibernéticos e aperfeiçoados são valorizados na medida em que são capazes de propiciar experiências mais intensas e distintivas do mundo real, a realidade de Jogador No 1 propõe que o valor das experiências, da vida e da singularidade humana situa-se na qualidade das relações interpessoais, na permanência e na difusão de aspectos identitários em um mundo social e simbólico predominantemente virtual, mais independente das características físicas (aparência e maneiras reais) ou da condição social biológica real de quem esteja controlando o personagem/avatar que o representa na interface digital. Quando Wade Watts, protagonista de Jogador No 1, reconhece que a realidade virtual de OASIS é onde “as pessoas vão pelo que podem fazer, mas permanecem por aquilo que podem ser”, demonstra que o fascínio dos indivíduos por aquele ambiente digital vincula-se a uma característica específica da plataforma: sua capacidade de potencializar as possibilidades de realização das individualidades ao permitir novas formas de comunicação e de expressões identitárias que podem resultar na constituição mais plena e singular do Self de cada um. O drama central de Watts apresenta-se justamente neste sentido, quando escolhe comprometer suas condições reais de subsistência (dele e dos parentes com quem compartilha a moradia) para privilegiar sua experiência no ambiente de OASIS. Aliás, a ausência do suporte material e emocional dos pais de Watts pode ser um estímulo extra para seu escapismo virtual, fazendo com que o jovem desconecte-se com mais frequência do “mundo real” em busca da plenitude e das oportunidades que as experiências digitais lhe oferecem. Assim, o enredo de Jogador No 1 também sugere que, ao por possibilitar o armazenamento e a reinterpretação constante das relações sociais, a memória é em última instância o principal elemento do qual dependem os principais processos constitutivos do Self, as capacidades perceptivas, cognitivas e culturais para perceber, interpretar e significar tais experiências fragmentadas e relativas a diferentes dinâmicas e contextos sócio-culturais no intuito de associá-las com o Self, também são fundamentais.

    Em Ghost in the Shell, apesar de que a obliteração entre a dimensão virtual e a dimensão real ocorra através de tecnologias holográficas, de Realidade Aumentada e, em alguns casos com intervenções cibernéticas diretas na própria memória dos indivíduos, nas relações sociais ali desenvolvidas o “cenário” ou “palco” do mundo real mostra-se ainda preponderante sobre os ambientes virtuais, e a memória individual do personagem/ator (seja ela autêntica ou artificial) é também o recurso que, acompanhada das capacidades perceptivas, cognitivas e culturais, ampara a constituição, o armazenamento, a manutenção e o desenvolvimento constante do Self, possibilitando afinal a continuidade de uma determinada experiência histórico-social do indivíduo humano.

    As projeções futuristas e fictícias destes filmes parecem de fato distantes da nossa realidade atual, porém, conforme avaliamos no capítulo anterior, hoje as tecnologias digitais de comunicação oferecem múltiplas plataformas virtuais (redes sociais, jogos, dispositivos de filmagem, fotografia, escrita, etc.) capazes de armazenar e de transmitir em diversos formatos e diferentes tipos de mídia uma infinidade de elementos culturais que representam aspectos das vivências pessoais e constituem partes da memória biográfica e da identidade individual do personagem/ator. E apesar de que esta memória digital artificial seja uma memória externa ao indivíduo, e em alguns casos torne-se distante ou não-operativa do ponto de vista dos demais indivíduos e do próprio Self que a constituiu, em inúmeras situações ela permanece disponível nestas mídias, passível de consulta e de reinterpretação, podendo influenciar tanto na constituição da identidade social quanto na constituição do Self de alguém: na edição de 2012 do festival de música Coachella, realizado anualmente no estado da Califórnia nos Estados Unidos, os rappers Dr. Dre e Snoop Dogg homenagearam postumamente o também rapper Tupac em uma performance simultânea com a projeção holográfica produzida a partir de uma das antigas apresentações registradas em vídeo de Tupac, criando a impressão de que o cantor — falecido em 1996 — estivesse de volta à vida e então ali se expressando no palco do evento. Tal evento representa um interessante exemplo das dinâmicas identitárias possibilitadas por estas mídias que armazenam manifestações e elementos biográficos de alguém. As “memórias artificiais” das mídias digitais e os recursos de projeção permitiram assim que cada artista e fã de Tupac presentes naquela apresentação musical revivessem ali, de um modo bastante peculiar, um dos momentos mais expressivos do rapper, de modo que cada indivíduo ali presente além de tornar-se capaz de recontextualizar a identidade social do artista a partir daquelas projeções da sua imagem, também pôde incorporar tal experiência à estrutura do seu próprio Self, quase como se o artista estivesse de fato ali presente entre deles.


    A partir deste exemplo, entendemos melhor as maneiras com que, na realidade pós-moderna, as memórias artificiais e as tecnologias digitais possibilitam que as relações sociais que influenciam na constituição da Identidade Social e do Self possam transcender os clássicos limites espaço-temporais impostos pelas dimensões da corporalidade orgânica e natural. Assim, se na condição moderna prevalecem as narrativas históricas mais simples e estruturadas de forma mais linear — que há milênios desenvolvem-se mundo afora sob a influência da limitação natural imposta pela oralidade das narrativas mitológicas ancestrais e da própria estrutura léxica original das técnicas de escrita, por exemplo —, em uma condição pós-moderna a facilidade de comunicação, produção, armazenamento e transmissão de conteúdos textuais e imagéticos torna possível acompanhar de forma simultânea e à distância (hoje principalmente através da Internet e suas redes sociais digitais) inúmeros fragmentos distintos de narrativas sociais reais, de fatos e experiências protagonizados pelos “outros”, cada qual com um contexto sócio-cultural específico e uma temporalidade própria e também fragmentada de desenvolvimento. Tais estruturas narrativas, em maior ou menor grau de intensidade e frequência, transfiguram-se em dramas na subjetividade de cada indivíduo que as acompanha, orientando a constituição de subjetividades e a formação do Self de cada um.

    Além destas diferenças mais gerais no aspecto estrutural das próprias narrativas, alguns dispositivos e artifícios típicos da pós-modernidade também contribuem com alterações específicas nas dinâmicas de constituição do Self: os intensos vínculos sociais desenvolvidos através das redes sociais digitais via smartphones, por exemplo, podem ainda estimular um deslocamento semântico parcial e transitório do Self, que é eventualmente transferido para o próprio dispositivo — ou transita entre o dispositivo e o corpo do indivíduo — especialmente durante os momentos de interação com outros indivíduos, pois se consideramos que “o meio é a mensagem”(9), tanto o smartphone quanto os aplicativos utilizados nas relações constituem além de um contexto discursivo, também um aspecto identitário de quem os utiliza. Entretanto, o momento de realização de uma selfie (auto-retrato) é talvez o mais emblemático quando nos referimos ao fenômeno de deslocamento semântico e transitório do Self, pois no ato da fotografar a si mesmo, a tela do dispositivo “reflete” para o indivíduo a imagem da sua própria face — reproduzindo um efeito similar ao de olhar-se no espelho —, ocasião em que o indivíduo vislumbra então o seu próprio “Eu” objetivo, vivo e animado, projetado diante de si, e “interagindo” consigo mesmo na busca do melhor enquadramento e iluminação para realizar a foto. É neste exato instante, diante da própria imagem e em um breve momento de autoconsciência, que a síntese temporária entre o “Eu subjetivo” e o “Eu objetivo” parece também tornar-se possível.


    Desta maneira, se os aspectos essenciais da pós-modernidade (maior fragmentação e efemeridade de valores culturais e das relações interpessoais) podem exigir maior capacidade memorativa e também uma desenvoltura cognitiva mais elevada para que o indivíduo possa adaptar-se momentaneamente aos distintos padrões de movimento (modos de expressão e comportamento) requisitados pelas múltiplas modalidades de situações e interações diárias possíveis de serem experimentadas nesta tal condição pós-moderna, a ideia de redução da consistência qualitativa pode ser eventualmente associada com maior propriedade em relação à sua Identidade Social (o estereótipo ou a impressão que os outros têm dele) — em virtude exatamente da inevitável e ampla fragmentação de sua Identidade Social diante de tal realidade. Entretanto, conforme o indivíduo compreende as dinâmicas da vida social em relação a tais aspectos fundamentais da pós-modernidade, esta compreensão o permite que reconsidere continuamente a consistência qualitativa do seu próprio Self, reavaliando constantemente as impressões que tem de si mesmo em relação a esta própria realidade. Assim, as circunstâncias contextuais pós-modernas tornam-se legitimadoras de uma aparente inconsistência que, na verdade, talvez seja apenas o resultado inevitável das adequações constantes e necessárias do Self aos múltiplos modus vivendi(10) inerentes à elas.



    NOTAS:


    (1) É possível compreender alguns aspectos do desenvolvimento histórico e etimológico da noção de “indivíduo” a partir da análise do historiador suíço Jacob Burckhardt em “A Cultura do Renascimento na Itália”.

    (2) A ideia de “Identidade Fractal” deriva noção de “Pessoa Fractal” — desenvolvida pelo antropólogo estadunidense Roy Wagner —, na qual um mesmo indivíduo ou instituição podem assumir e reproduzir diversas facetas identitárias que variam em função da variedade de perspectivas culturais e da multiplicidade de intercâmbios simbólicos possíveis em um determinado contexto social no qual tal indivíduo e/ou instituição se relacionam.

    (3) “Estereótipo” é a imagem preconcebida de determinada pessoa, coisa ou situação. ( https://pt.wikipedia.org/wiki/Estere%C3%B3tipo ).

    (4) O termo “persona”, conforme os estudos do antropólogo Marcel Mauss em “Uma categoria do espírito humano: a noção de Pessoa, a noção do ‘Eu’”, tem origem no conceito “per/sonare” (do latim), uma referência à máscara através da qual soa a voz do ator.

    (5) Mais do que um filme complexo em conteúdo, Ghost in the Shell é uma obra de arte primorosa. Apesar da ficção ultra-futurista, o lastro científico do enredo é apresentado de forma coerente ao ponto de fazer com que os mais céticos possam crer na possibilidade de que tal realidade venha mesmo a existir. Além disso, o refinamento técnico-estético é sublime ao ponto de quase eliminar por completo as dúvidas sobre a existência do universo imaginário no qual a narrativa do filme se desenvolve. Depois de anos com os sentidos e o senso crítico relativamente anestesiados pela reprodução massiva da estética dos típicos “pastelões” hollywoodianos, Ghost in the Shell foi o primeiro filme que me fez de fato voltar a acreditar no cinema enquanto meio com imenso potencial criativo de expressão artística. A ambientação futurista dos cenários e a produção dos figurinos são também absolutamente convincentes e sustentam de forma magistral o contexto póstero da história.

    (6) Conforme definição e classificações biológicas e psicológicas atuais. ( https://en.wikipedia.org/wiki/Memory ).

    (7) Um artigo publicado em 2013 na Discover Magazine apresenta importantes descobertas de algumas vertentes destes estudos: http://discovermagazine.com/2013/may/13-grandmas-experiences-leave-epigenetic-mark-on-your-genes

    (8) Em maio de 2018 foi publicado no “The European Physical Journal C” um artigo de Cohl Furey, então pesquisadora em física teórica de partículas na Universidade de Cambridge, no qual a autora consolida descobertas onde, com a Matemática, busca reproduzir a matriz de cargas elétricas e outros atributos para elétrons, neutrinos quarcks e suas antipartículas no intuito de construir o grupo de simetria do Modelo Padrão completo da geração de partículas.

    (9) Tal expressão foi cunhada pelo Filósofo canadense Marshall McLuhan, em referência às influências culturais exercidas também pelos próprios dispositivos midiáticos através dos quais as mensagens culturais são transmitidas.

    (10) Por “Modus Vivendi”, Goffman caracteriza o padrão interacional estabelecido pelos indivíduos em uma determinada situação de interação. (GOFFMAN, P.18).


    REFERÊNCIAS:



    GOFFMAN, Erving. Representações. A representação do Eu na vida cotidiana. Petrópolis: Vozes, 2011. HARVEY, David. A condição pós-moderna”. A condição pós-moderna. Uma investigação sobre as origens da mudança cultural. São Paulo: Edições Loyola, 1992. MAUSS, Marcel. Uma categoria do espírito humano: a noção de Pessoa, a noção do ‘Eu’. In: Sociologia e Antropologia. São Paulo: EPE/EDUSP, 1974 BATESON, Gregory. Mente e Natureza - Uma união necessária. Livraria Francisco Alves Editora. Rio de Janeiro, 1986. VYGOTSKY, Lev. A Formação Social da Mente: O Desenvolvimento dos Processos Psicológicos Superiores. Ed. Martins, 2007. GÉRARD, Ralph W. "Physiology and Psychiatry”. American Journal of Psychiatry, 1949: 161-73. JOGADOR No 1, Direção: Steven Spilberg. (2h20min) Warner Bros, 2018. GHOST IN THE SHELL, A Vigilante do Amanhã. Direção: Rupert Sanders. (1h47min) Paramount Pictures, 2017.



    ©2018 Eduardo Galvani.


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