PRINCÍPIOS DA COEXISTÊNCIA INTERESPECÍFICA

— Sobre Comunicação Cinestésica e Comunicação Cinestésica Expandida


*(Principles of Interespecific Coexistence - about Cinestetic Communication and Expanded Cinestetic Communication)


©2018 Eduardo Galvani



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RESUMO: Este ensaio consiste em um estudo preliminar das possibilidades de coexistência mais sustentável entre os seres humanos e as outras espécies de seres vivos através do estabelecimento de relações de interdependência nas quais as noções de Comunicação Cinestésica e Comunicação Cinestésica Expandida fundamentam os princípios de tais relações.


Palavras-chave: Coexistência, Interespecismo, Comunicação Cinestésica.

ABSTRACT: This essay consists of a preliminary study of the possibilities for a more sustainable coexistence between humans and other living beings through the granting of relations of interdependence in which the notions of Cinestetic Communication and Expanded Cinestetic Communication establish the principles of these relations.


KEYWORDS: Coexistence, Interespecism, Cinestetic Communication.




"Não considere nenhuma prática como imutável."

(Burrhus Frederic Skinner)





Recorte da ilustração "Corpo Domesticado, Alma Selvagem" © 2018 Eduardo Galvani



O período geológico no qual vivemos tornou-se reconhecido pelo nome de Antropoceno (anthropo- (ἄνθρωπος) "humano" e -ceno “novo"), em alusão ao momento em que a humanidade conscientizou-se de sua ampla influência sobre as transformações ambientais do planeta. Esta influência ocorre em uma multiplicidade de dimensões, e identificar suas origens e consequências tem sido uma preocupação de muitos cientistas, governos e instituições ao redor do planeta. Também existem polêmicas e controvérsias políticas sobre a existência ou não do Aquecimento Global, e se isto seria resultado das ações humanas ou apenas um reflexo inevitável dos ciclos naturais do planeta. Em virtude da amplitude, da complexidade e das intensas dinâmicas do ambiente global, é difícil avaliar com precisão as influências humanas em uma escala mundial, mas quando restringimos a análise a áreas ambientais menores (cidades, estados ou mesmo países e continentes), torna-se viável observar as inúmeras e óbvias consequências da ação humana.


Em virtude da profundidade ética e moral das questões sobre as quais este assunto faz pensar — por estar relacionado ao modo com o qual diferentes grupos e sociedades humanas significam culturalmente sua própria existência —, em alguns contextos pode torna-se um drama tenso e até mesmo atormentador emitir qualquer observação acerca disto, quanto mais uma observação com teor de constatação. Mas considerando acima de tudo os modos distintos com que as mais variados grupos humanos significam culturalmente a suas próprias existências e suas diferentes concepções de realidade, me parece coerente e também pertinente afirmar que um dos possíveis motivos destes excessos da ação humana sobre o planeta pode ter origem em um dilema ético protagonizado pelo mundo ocidental e intensificado a partir do do século XIX, relacionado com a incorporação desmedida da pretensa objetividade da ciência moderna identificável em inúmeras apropriações das ciências biológicas. Este dilema pode ser resumido da seguinte maneira: se os princípios básicos e universais do método científico racionalista moderno estimulam um distanciamento metodológico entre o cientista e seus objetos de estudo, então é compreensível que nas mais variadas ciências tenha-se este cuidado. Mas ao transferir indiscriminadamente esta atitude metodológica para as ciências biológicas (ou as “ciências da vida”), e apropriar-se de seu conhecimento para a mera reprodução de práticas econômicas e sociais predatórias, pode-se estar cultivando e estimulando uma visão equivocada da realidade ao reduzir as mais complexas dinâmicas orgânicas e energéticas do planeta a meros fragmentos materiais e conceituais independentes. Assim, em nome da tal pretensa objetividade ou de um antropocentrismo exacerbado, baseados em valores culturais questionáveis que distanciam a consciência da lógica constitutiva da própria vida, a humanidade afasta-se da sua natureza complexa de modo a esquecer da sua condição de interdependência com outras espécies e com a totalidade do planeta, desprezando a influência desta complexidade sobre a própria condição humana enquanto ser vivo e absolutamente dependente do meio ambiente natural.


Mas é possível romper com essa tradição racionalista e quase hegemônica do ethos científico ocidental contemporâneo? Seria ingenuidade atribuir apenas ao campo científico as consequências desta tradição, pois as ações mais predatórias e devastadoras são resultado direto da ação humana em dimensões produtivas e econômicas das sociedades industriais. Mas sabemos que o “modo de ver” da Ciência pode influenciar no modo de ver de toda uma sociedade, e, afinal, inúmeras destas atividades produtivas e econômicas também dependem da colaboração direta de cientistas que eventualmente tornam-se “residentes” das próprias indústrias. Então em que medida e de que maneiras as ciências (especialmente as ciências biológicas) podem adotar outras perspectivas sobre os assuntos da vida sem objetificá-la ao ponto de aliená-la da complexa realidade que todos nós seres vivos compartilhamos? Diante da realidade do Antropoceno que consideramos no início deste ensaio, tal questão parece urgir — não é por acaso que neste ano de 2018 os cientistas norte-americanos William D. Nordhaus e Paul M. Romer foram premiados com o Nobel de Economia, exatamente por suas contribuições ao desenvolvimento de modelos sócio-econômicos mais sustentáveis e compreensivos com o meio-ambiente.


É importante lembrar ainda que este modo científico moderno e ocidental de lidar com os “assuntos da vida” pode ter sido estimulado pela influência dos conflitos entre a Religião e a Ciência, historicamente representados com maior ênfase na herança das cruzadas da época medieval em que filósofos, alquimistas, curandeiras e outros experimentalistas e pensadores (considerados cientistas pré-modernos) foram perseguidos, acusados de bruxaria e literalmente queimados vivos sob a alegação de contrariarem princípios e valores éticos e morais defendidos pela Igreja. E se hoje é possível identificar algum esforço conciliatório, parece um impulso ainda estranhamente mais estimulado pela própria Ciência do que pela Religião — que na grande maioria (ou na totalidade) das sociedades tem uma certa obrigação moral de ser exemplar especialmente quando o assunto é a coesão social. Mas em vez disso vemos religiosos diariamente em cultos televisionados profanando valores da Ciência, esperando que para todo e qualquer problema humano, milagres literalmente caiam do céu, ignorando assim toda uma condição histórica cujos fundamentos culturais e tecnológicos consagramos ao desenvolvimento da Ciência. E do outro lado vemos a Filosofia, a Psicologia, a História, a Antropologia e a Sociologia (além de outras ciências humanas) desenvolvendo estudos que ao invés de questionar a eficácia do pensamento e dos costumes místicos, propõem identificar neles a importância e o valor humano e social da Religião. Se o princípio fundamental da Ciência é a verdade relativa e a transformação constante, o princípio fundamental da maioria das religiões parece ser a verdade absoluta e a permanência insuspeita. Os mitos podem (e talvez devam) explicar aquilo que a Ciência ainda não sabe ou não é capaz de explicar, mas apesar de suas próprias especificidades, não convém a nenhuma das Ciências desenvolver-se de forma completamente hermética e isolada das outras áreas do conhecimento, ou repousar no conforto de mitos e dogmas do seu próprio passado(1), sob o risco de tornarem-se inúteis ou pérfidas, obsoletas e deslocadas das próprias dinâmicas da realidade ao qual se propõem a observar e interpretar.


Mas estas relações tensas e conflituosas que observam-se ainda hoje entre a Ciência e a Religião, entre “pensamento místico” e “pensamento racional” são legados de um verdadeiro dilema histórico e milenar, uma questão ainda mal resolvida entre religiosos e cientistas que tem origem certamente antes mesmo da Antiguidade, pois é debatida desde as principais correntes filosóficas antigas (Cícero, Platão, Aristóteles e Sócrates), passando por vertentes da filosofia humanista do Renascimento e do Iluminismo (Thomas More, John Locke, David Hume) e com bastante ênfase entre pensadores da era moderna (Immanuel Kant, Fredrich Hegel, Johann Fitche, Joseph Schelling entre outros). Mas se hoje — diante dos lamentáveis diagnósticos emitidos pela natureza e condensados nas incontáveis teses e relatórios sobre o Antropoceno —, convém aos contemporâneos esclarecerem este mal-entendido e na medida do possível tentar conciliar estas diferentes dimensões da vida humana — e se tais transformações de pensamento e de atitude no intuito de desalienar a vida da objetividade científica dependem da consideração de aspectos essenciais desta complexidade —, creio que tanto os estudos sobre a Comunicação Cinestésica “simples” quanto da Comunicação Cinestésica Expandida podem representar contribuições neste sentido.


A COMUNICAÇÃO CINESTÉSICA



Comunicação é o ato de transferir e receber informações em forma de mensagens. Para comunicar-se, a humanidade desenvolveu e hoje domina uma infinidade de linguagens diferentes. A Comunicação Cinestésica (cine- “movimento” e stesia- “percepção”) é a comunicação a partir da percepção de movimentos. Parece simples, e em algum sentido é. Na verdade a Comunicação Cinestésica (também conhecida por Comunicação Cinésica) é considerada uma das primeiras formas de comunicação humana, orientando os primórdios da interação social baseada na “linguagem de ação”.(2). A simplicidade da Comunicação Cinestésica baseia-se nos elementos que ela envolve: movimentos, a percepção e a interpretação dos movimentos. Em virtude desta simplicidade, e da “naturalidade” com que é desenvolvida, a Comunicação Cinestésica é a técnica mais adequada (e em alguns casos a única) para a humanidade comunicar-se com outras espécies. A Comunicação Cinestésica pode ser “tátil” (quando envolve a percepção do movimento através do contato ou toque) ou apenas “visual” (com a percepção do movimento através da visão).


Na Comunicação Cinestésica entre humanos, os principais aspectos simbolizantes estão relacionados à percepção das dinâmicas corporais, incluindo desde os movimentos mais amplos até os pequenos gestos, posturas e mesmo o olhar e o tom da voz. Entretanto, quando a Comunicação Cinestésica é estabelecida entre humanos e outras espécies (interespecífica), estes aspectos simbolizantes variam de acordo com a corporalidade, a biodinâmica e o comportamento de cada espécie. Os antropólogos brasileiros Gabriel Coutinho Barbosa e Brisa Catão desenvolveram um estudo empírico sobre a Comunicação Cinestésica estabelecida há décadas entre pescadores e uma espécie de golfinhos durante a pesca de tainhas(3) no litoral de Laguna, na região Sul do Brasil. No artigo, entitulado “Botos Bons, Peixes e Pescadores: Sobre a Pesca Conjunta em Laguna (Santa Catarina, Brasil)”, os pesquisadores trazem uma interessante análise sobre a história da relação de convivência entre aqueles pescadores e golfinhos nariz-de-garrafa (chamados por eles de botos), narrando os principais aspectos da maneira com que a Comunicação Cinestésica se estabelece entre os golfinhos e os pescadores durante a prática da pesca, e de que modo ela possibilita aos pescadores aumentarem a eficiência da pesca ao mesmo tempo que beneficia os botos. Com a complexidade e a completude das descrições (provavelmente obtidas a partir de investigação e análise minuciosas do fenômeno), o texto parece dar conta de, senão todos, dos principais aspectos do fenômeno no que tange à relação entre os pescadores e os golfinhos:

Tais sinais correspondem a movimentos e posturas corporais, tensões musculares; hesitações, pausas e acelerações; alterações de voz, respiração e expressão facial, entre outros. Os sentidos desses sinais na comunicação são determinados pelo contexto e por variações de magnitude – diferenças de amplitude, intensidade, velocidade e/ou duração. Trata-se do que o autor chama de comunicação analógica, e ostensiva, na qual o objeto é apontado e usado como seu próprio referente. Por exemplo, “um mordisco de brincadeira entre cães denota mordida, mas não o que seria denotado pela mordida”.Tais comportamentos sugerem algo (no caso, ataque), mas significam algo diferente (brincadeira). São “ações metafóricas” que comunicam e (reforçam) padrões de relacionamento análogos aos de outras relações. Configura-se uma espécie de jogo metacomunicativo, em que os comportamentos sempre comunicam algo a respeito das contingências e padrões de relacionamento entre os interlocutores, como autoridade, submissão, dependência e brincadeira. Isso requer dos participantes deduzir o conteúdo das mensagens, com base no contexto da interação, na relação entre eles e na experiência prévia de cada um. A situação emergente depende da forma como os comunicantes apreendem responsivamente os sinais uns dos outros. (CATÃO, COUTINHO, p. 13).


Algo que merece ser considerado ainda é a sensibilidade dos autores em relacionar especificidades do fenômeno observado avaliando desde a forma com que os golfinhos teriam desenvolvido tal capacidade comunicativa, até a noção de “coaprendizagem" e “desenvolvimento interespecífico de habilidades" a partir de um entrelaçamento contínuo entre as habilidades (conforme a noção de Ingold) dos homens e dos golfinhos, onde a "responsividade mútua e a sintonização das ações” é a principal habilidade desenvolvida tanto pelos golfinhos quanto pelos pescadores. Esta reciprocidade, afirmam, é o que possibilita a criação de um cerco mais eficiente aos cardumes de tainha, resultando assim em uma pesca mais proveitosa tanto para os golfinhos quanto para os pescadores. A partir da investigação e da análise deste fenômeno aparentemente simples e isolado (a pesca conjunta entre golfinhos e pescadores em Laguna), Catão e Coutinho demonstram assim a importância da Comunicação Cinestésica para a configuração de formas cooperativas em relações interespecíficas — um recurso potente e também um conceito antropológico fundamental (muitas vezes aparentemente esquecido ou ignorado pelas teorias ou vertentes de perspectivas mais antropocêntricas).


Entendemos, portanto, que por basear-se no reconhecimento dos movimentos e expressões corporais, quanto mais semelhantes as espécies envolvidas, mas eficiente e completa pode ser a Comunicação Cinestésica. Podemos, por exemplo, reconhecer e traduzir sentimentos em emoções através das expressões faciais e/ou das reações corporais de alguns animais morfologicamente mais parecidos conosco, pois associamos tais expressões com nossos próprios sentimentos e emoções, mas é mais difícil reconhecer tais sentimentos em animais e outros seres vivos mais distantes na catalogação biológica, pois são fisicamente mais diferentes da nossa espécie. E é neste sentido de ampliar a eficiência, os potenciais e as capacidades humanas ao estabelecer relações interespecíficas que a Comunicação Cinestésica pode ser aprimorada. Algumas espécies mais simples e incapazes de expressar-se visualmente de forma mais imediata podem depender de que compreendamos sua biodinâmica, seus ritmos, expressões e sinais em outras temporalidade, diferente daquela que estamos acostumados a nos relacionar entre humanos ou entre espécies mais parecidas com a nossa. Ao observar ou perceber determinados sinais ao longo do tempo, é possível captar e interpretar não apenas informações transmitidas por animais, mas também por vegetais e outros seres menos complexos. Quando uma planta se mostra murcha ou esmaecida, por exemplo, interpretamos que isto pode ser um sinal visual da sua necessidade de água. De algumas maneiras, a Comunicação Cinestésica aproxima-se assim dos métodos clássicos das ciências biológicas, os quais pressupõem a observação, a catalogação e a interpretação de determinados padrões de constituição morfológica, comportamentos, expressões visuais e dinâmicas energéticas das espécies. No capítulo seguinte, esta percepção será confirmada, e a partir da noção de Comunicação Sinestésica Expandida tentaremos então compreender de que modo as ciências biológicas (e outras ciências) podem ampliar suas capacidades ao considerarem os princípios da Comunicação Cinestésica (e vice-versa). Mas antes disso proponho analisar ainda de que modo a temporalidade representa um dos princípios fundamentais da Comunicação Cinestésica, pois ampliar as noções sobre a percepção temporal relativa ao comportamento e às biodinâmicas de cada espécie (e das eventuais relações já estabelecidas entre elas) é fundamental para a compreensão do modo com que a Comunicação Cinestésica pode ser conciliada com as ciências biológicas, e também ampliada para permitir o estabelecimento de relações humanas com outras espécies.


Para tratar sobre a importância desta tal de temporalidade, proponho uma breve incursão em um estudo da antropóloga Anna Tsing. Em "Diversidade Contaminada em Perturbação Lenta, Colaboradores Potenciais para uma Terra Habitável", a pesquisadora norte-americana propõe a noção de "perturbação lenta" enquanto modo de viabilizar a coexistência harmônica e equilibrada de diferentes espécies. Ao também partir da constatação de que vivemos na era do Antropoceno — na qual os efeitos da ação humana sobre o ambiente natural do planeta tornam-se mais evidentes e eventualmente catastróficos não apenas para ecossistemas específicos, mas para todo o globo, eventualmente causando extinções em massa de um modo até então inédito —, Anna destaca que, entretanto, este é um período no qual também emergem modos biológicos e culturais de vida que se desenvolveram durante os últimos milhares de anos em relação à perturbação humana. A "perturbação lenta", de acordo com Anna, consiste em ecossistemas antropogênicos nos quais outras espécies podem conviver com os humanos, e que, para uma melhor compreensão de tais sistemas, é necessário "narrar histórias em que a diversidade emerge" ao invés de apenas catalogar esta diversidade. Em outras palavras, é importante considerar a presença e a interferência humana ao invés de ignorá-la, pois só assim é possível compreender seus efeitos sobre tal diversidade e buscar melhores meios de convivência. Anna compreende que há diversidade contaminada em toda parte — em regiões inóspitas do globo ou dentro de ruínas de prédios abandonados em centros urbanos, por exemplo — e que a presença humana em modo de "perturbação lenta" pode permitir a prosperidade de tais diversidades: tanto as florestas de pinus que produzem cogumelos matsutake em Oregon, quanto os destroços de prédios bombardeados em Berlim, são ambientes que criam as condições para que se estabeleçam relações entre a diversidade cultural contaminada e a diversidade biológica contaminada.


Diversidade contaminada está em toda parte; para melhor ou para pior, é o que temos. Aceitando essas limitações, a coleta de matsutake constitui perturbação lenta, permitindo a vida da floresta continuar.

(TSING)


A partir desta análise de Tsing, compreendemos que a temporalidade emerge enquanto elemento definidor da especificidade das Comunicações Cinestésicas interespecíficas, pois importa compreender em que aspectos a influência de tal temporalidade é mais importante para cada tipo de interação, ou, em outras palavras, a partir do entendimento das características das temporalidades e ritmos biodinâmicos, quais os potenciais expressivos e comunicativos cinestésicos das espécies envolvidas em cada interação? Se os cogumelos matsutake de Oregon possuem suas próprias temporalidades biodinâmicas, os golfinhos de Laguna possuem outras. Estas temporalidades referem-se às regularidades biológicas (relativas a diferentes espaços de tempo) e ciclos de vida próprios de cada espécie, mas de uma forma mais ampla, referem-se também ao modo com que cada espécie comporta-se em relação aos ciclos naturais do planeta, demarcados na cultura moderna ocidental pelas sazonalidades das estações do ano, por exemplo. Assim, convém considerar que nas regiões do planeta onde as sociedades preservam as culturas originárias de seus habitantes ancestrais locais, tais sociedades podem ter à sua disposição um arcabouço de conhecimento que pode ser capaz de orientar o desenvolvimento da Comunicação Cinestésica com as outras espécies nativas, especialmente quando tais conhecimentos baseiam-se em relações seculares (ou mesmo milenares) e intrínsecas de coexistência com tais espécies, permitindo portanto compreensões não alienantes ou objetivantes (do ponto de vista da objetificação da ciência moderna) destas outras espécies. O estudo ontológico e a interpretação das mitologias e cosmologias destas sociedades podem revelar modos de relações interespecíficas e interdependências (modos de coexistência) há séculos ou milênios já estabelecidas entre os habitantes, a fauna e a flora locais, permitindo assim compreender e traduzir as temporalidades biodinâmicas de inúmeras espécies locais em relação aos seus próprios ecossistemas originais.


Este modo de compreender as relações interespecíficas nativas através das mitologias ancestrais pode ser melhor compreendido a partir de um estudo do antropólogo escocês Peter Gow sobre o povo Piro, da amazônia peruana, entitulado “Um Mito Amazônico e sua História”. Neste estudo, Gow avalia que a temporalidade de determinadas relações entre os habitantes e as demais espécies do seu entorno (melhores épocas para a pesca de uma determinada espécie de peixe, por exemplo) pode ser compreendida através das narrativas míticas — que ao mesmo tempo descrevem e orientam suas práticas de vida e visões ontológicas —, e que transformações nestas narrativas ao longo do tempo acompanham mudanças também no modo com que vivem, compreendem e interpretam a própria temporalidade da fauna e da flora local, influenciando assim nestas relações interespecíficas ali estabelecidas, conforme sugere o trecho a seguir:

Human mortality is a mode of temporality, and one close to the thoughts of Piro people. These mythic narratives link the temporality of human life to the temporality of the white-lipped peccaries lives when they see themselves as people, but also to the chancy temporality of white-lipped peccaries when viewed by humans. This latter temporality is manifested by the sudden appearance of white-lipped peccaries in huge numbers, and their equally inexplicable sudden disappearances. The various versions of the myths under discussion here link these forms of temporality to others and, as I show, reveal an interesting temporal dimension in themselves.

(GOW, Peter. p. 71).



As temporalidades biodinâmicas e/ou o tempo de convivência com (e entre) as espécies mostra-se assim um dos principais fatores da relação interespecífica, pois é apenas o tempo que nos permite acompanhar e conhecer determinados comportamentos, ritmos biodinâmicos e ciclos da vida destas espécies, para então adaptar-se a elas e/ou adaptá-las às nossas próprias temporalidades biodinâmicas, desenvolver afinal as mutualidades da relação.


Conforme avaliamos no início deste ensaio, a “linguagem de ação” é a linguagem primeira da humanidade, aquela que deu origem aos princípios da fala, da escrita e de todas as outras formas de comunicação que conhecemos hoje. A linguagem de ação pura é corporal, do movimento, surge do impulso comunicativo primordial diante da vontade ou da necessidade de comunicar algo a alguém e estrutura-se a partir da atribuição de significados a determinados gestos, expressões ou movimentos (ou sequências de gestos, expressões e movimentos). E apesar de que hoje a linguagem de ação seja mais utilizada pelos humanos no Teatro, no Cinema e na Televisão para transmitir ou reforçar visualmente alguma expressão, é uma linguagem também amplamente reconhecida e utilizada, com maior ou menor intensidade, nos meios corporativos, na política e em diversas outras dimensões da vida social humana. Algumas outras espécies mais domesticáveis (principalmente os cachorros), quando ensinados, podem compreender facilmente além de expressões da linguagem de ação (gestos e movimentos corporais), também inúmeras expressões orais humanas. Também existem estudos(4) que revelam que espécies de primatas são capazes de aprender expressões orais e linguagens de sinais pra interagir com humanos. Entretanto, a comunicação da humanidade com a grande maioria das espécies animais depende quase que exclusivamente dos princípios da linguagem de ação e da Comunicação Cinestésica, portanto, relações interespecíficas tornam-se mais completas a partir da Comunicação Cinestésica baseada nos princípios básicos da linguagem de ação: cada gesto, expressão ou movimento tem seu próprio significado em relação ao contexto da interação.


A Comunicação Cinestésica tem algo que podemos considerar uma “gramática”, ou uma “estrutura” própria? A Comunicação Cinestésica talvez ainda não seja uma linguagem plenamente estruturada, mas também está longe de ser uma improvisação baseada em relações espontâneas e cincunstanciais — conforme ficou claro a partir do estudo de Brisa Catão e Gabriel Coutinho sobre a pesca conjunta entre humanos e golfinhos. E apesar de que a Comunicação Cinestésica é desenvolvida e estabelecida com cada espécie de acordo com suas próprias características e temporalidades biodinâmicas, podemos considerar que ela prescinde de princípios básicos universais, no qual determinados significados são atribuídos às dinâmicas específicas dos gestos, movimentos e expressões corporais de cada espécie.



COMUNICAÇÃO CINESTÉSICA EXPANDIDA


Assim, se as ciências biológicas constituem-se um tipo de linguagem que nos permite compreender e compartilhar conhecimentos e especificidades sobre outras espécies de seres vivos, a Comunicação Cinestésica Expandida representa uma confluência desta linguagem científica com os princípios da “linguagem de ação” — ou da Comunicação Cinestésica “simples” —, e nos permite além de compreender as características genéticas, morfológicas e temporalidades inerentes aos ciclos de vida das outras espécies — como se fossem objetos independentes da realidade que os circunda —, expandir nossa compreensão para conciliá-la ao desenvolvimento de formas de interação interespecífica que nos permitam promover a coexistência mais equilibrada e cooperativa, de modo que possamos nos relacionar com estas outras espécies não no sentido da dominação, da predação ou da exploração unilaterais, desenfreadas e inconsequentes, mas sim de mutualidade, ou em um regime de “perturbação lenta”, conforme sugere Anna Tsing, contribuindo para preservá-las em suas características naturais e evitando extinções humanamente induzidas que possam ser prejudiciais do ponto de vista da preservação dos meios de coexistência harmônica, em toda a sua complexidade, entre a humanidade e o ambiente local ou global. A Comunicação Cinestésica Expandida permite compreender não um fragmento da manifestação do outro apenas, ou um momento específico, eventual ou rotineiro da manifestação ou relação a partir de uma perspectiva simples, limitada e limitadora, mas ao considerar as biodinâmicas complexas nos ciclos completos de suas existências, a Comunicação Cinestésica Expandida permite compreender as possibilidades de compatibilidade e de formas de coexistência mais equilibradas entre as espécies.


Alguns podem pensar que apropriar-se dos conhecimentos produzidos pelas ciências biológicas é o suficiente para a dominação e o controle das outras espécies, no sentido de satisfazer as necessidades e vontades humanas de produção e de consumo demandadas pelas sociedades humanas industrializadas e modernas. Entretanto, conforme também avaliamos antes, esta prática que ignora aspectos inerentes à complexidade das vidas pode ser ambientalmente devastadora em virtude do risco de comprometer o meio ambiente por extinguir outras espécies ou esgotar recursos naturais em consequência da exploração predatória e do consumo alienado e desmedido. Portanto, se tem algo que a Comunicação Cinestésica Expandida pode contribuir é exatamente em ampliar o conhecimento sobre aspectos até então desconhecidos ou ignorados da vida de outras espécies eventualmente já dominadas através da apropriação de conhecimentos específicos produzidos pelas ciências biológicas. Ao ampliar nossa compreensão sobre estes aspectos é que podemos identificar e desenvolver novas formas de relações interespecíficas sustentáveis, para isto, conhecer as temporalidades das biodinâmicas de cada espécie com as quais temos a oportunidade de coexistir mostra-se fundamental.


Uma formação geológica ou rocha vulcânica (um mineral) que marca a paisagem topológica da região onde nascemos e vivemos toda uma vida pouco pode representar do ponto de vista simbólico e cultural, ou pode representar um único aspecto servindo de referência geográfica durante o período de toda a nossa vida, pois estava ali desde que chegamos ao mundo e permanecerá da mesma maneira por bastante tempo, mesmo depois que tivermos nos despedido desta vida. Daí a relevância de observar e compreender as temporalidades biodinâmicas de cada espécie (em todos os reinos) conforme suas propriedades constitutivas que lhe conferem as dinâmicas próprias de interação com a realidade: nestes termos, animais e vegetais possuem uma temporalidade diferente dos minerais, pois suas relações com o meio ambiente mostram-se mais dinâmicas e complexas.


Através dos conhecimentos das ciências biológicas podemos identificar determinados padrões de comportamento nas mais variadas espécies animais e de outros seres vivos, realizando a classificação e o monitoramento em biomas específicos e o mapeamento de cadeias alimentares mais amplas e complexas. Mas ao conviver e observar detalhes destes padrões, e tentar traduzi-los do ponto de vista das próprias vivências destes animais considerando também aspectos simbólicos da complexidade biológica na qual estes seres estão inseridos, podemos narrar suas histórias, conforme sugere Anna Tsing, e ao ampliar nossos conhecimentos sobre eles para além da simples catalogação, compreender significados inerentes à suas próprias experiências e percepções da realidade. Mesmo nos centros urbanos, quando disponibilizamos alimento de forma regular para alguns pássaros ou outros pequenos animais não domésticos (ou semi domesticados), percebemos que eles podem retornar quase sempre naquele mesmo horário do dia para se alimentar. Mas será que podemos identificar nestes pássaros e outros animais também alguns outros padrões de comportamento, gestos e expressões que signifiquem algo além de que sentem fome naquele mesmo horário? E se é mais difícil observar e traduzir as biodinâmicas dos vegetais e das espécies morfologicamente menos complexas (insetos, etc.), isto pode tornar-se eventualmente viável quando aliamos os conhecimentos científicos biológicos já desenvolvidos de cada espécie com as histórias ancestrais — eventualmente seculares ou até milenares — que existem sobre elas, ampliando assim nossa capacidade de percepção e análise a uma quantidade mais elevada de aspectos de suas próprias temporalidades biodinâmicas.


Assim, ao utilizar conhecimentos ancestrais para o desenvolvimento da Comunicação Cinestésica, e uni-los aos conhecimentos das ciências biológicas, pode-se expandir a compreensão sobre aspectos distintos de diferentes espécies e relacioná-los entre si no intuito de estabelecer relações de coexistência mais complexas e equilibradas com elas. Em uma determinada região, por exemplo, com o tempo de convivência adequado, pode-se observar que ocorre uma gradativa alteração da coloração em uma espécie de cogumelos com a qual convive-se habitualmente há anos. Esta constatação da alteração de cor é uma expressão visual simples e discreta, mas que pode ser considerada o início de uma possível Comunicação Cinestésica. Se a partir de então expandir-se a percepção sobre o fenômeno de alteração da coloração dos cogumelos considerando a complexidade do ambiente e outros saberes científicos sobre tal espécie, eventualmente pode-se concluir que esta alteração de cor é resultado de uma mudança nas propriedades do solo, e que esta mudança do solo tem origem na redução da quantidade de uma espécie de árvore nativa que também está sendo extinta porque uma espécie de pássaro responsável por garantir sua proliferação está desaparecendo em virtude de uma prática humana específica que esgotou recursos dos quais estes pássaros dependiam, revelando, por exemplo, que outras espécies ligadas a este mesmo ecossistema das quais depende mais diretamente a subsistência humana naquele local também estejam ameaçadas. Esta conscientização obtida através da Comunicação Cinestésica Expandida pode possibilitar a mudança de hábitos no sentido de promover o resgate da ordem e da estabilidade do ecossitema em questão. A Comunicação Cinestésica constitui-se assim não como uma alternativa às ciências biológicas, mas como um instrumento à serviço da própria Biologia — mais ou menos do mesmo modo que a observação participante é um dos principais instrumentos da etnografia antropológica.


A Comunicação Cinestésica Expandida pode assim ser desenvolvida no sentido de tornar-se uma alternativa para aperfeiçoar as relações interespecíficas, um recurso que possibilite uma condição (ou modo de vida) humana que seja mais compatível com a noção de sustentabilidade, manutenção e conservação do meio ambiente natural em toda a sua complexidade. Quais seriam as consequências se os pescadores artesanais de Laguna tivessem pescado também os golfinhos? Apenas naquele ano teriam fartura e recursos extras, pois ao ignorarem e desconhecerem os ciclos e comportamentos típicos da espécie poderiam ter causado sua extinção local, e com certeza hoje sua pesca não seria tão eficiente quanto a pesca conjunta que realizam com eles. Podemos presumir também que a maioria daqueles pescadores artesanais que já utilizam a Comunicação Cinestésica para a prática da pesca conjunta com os golfinhos dominam também algum tipo de conhecimento biológico sobre estas espécies de peixes com as quais se relacionam, mas na medida em que este conhecimento é ampliado através do aprofundamento na ciência biológica específica de cada espécie, suas formas de Comunicação Cinestésica podem também expandir-se, tornando-se assim suas cooperações ainda mais intensas e eficientes.


Entretanto, se mesmo em alguns momentos pode ser bastante difícil compreender alguém da nossa própria espécie, com quem nos comunicamos em uma linguagem lógica e verbal comum, certamente pode ser bastante desafiador estabelecer qualquer tipo de comunicação com seres de espécies diferentes. Além disso, é importante considerar também que talvez seja mesmo quase impossível traduzir e atribuir intencionalidades a algumas formas de expressões de outros seres, mas se as nossas capacidades perceptivas e a autoconsciência nos permitem compreender que ao menos existe a possibilidade de interpretação para algumas expressões e a atribuição de algum significado a elas a partir da perspectiva das intencionalidades das próprias espécies e/ou das perspectivais mais globais e holísticas que considerem ao máximo a complexidade do meio-ambiente (e não apenas a partir da simples perspectiva antropocêntrica) — e a Comunicação Cinestésica e a Comunicação Cinestésica Expandida auxiliam nessa interpretação —, ter conhecimento dos caminhos que podem possibilitar esse tipo de interação já me parece um bom começo.



NOTAS:



1: Em “Significação e compreensão na história das ideias”, o historiador inglês Quentin Skinner (não confundir com o psicólogo Burrhus Frederic Skinner da citação inicial) desenvolve uma crítica aos métodos e ideias científicas hortodoxas que se pretendem universais ou imutáveis e, ao desconsideram o contexto, transformam ideias em mitos. A “mitologia da coerência”, por exemplo, ocorre quando atribui-se valor absoluto e imutável a algum conhecimento.


2: Em “Gramatologia”, Jacques Derrida avalia que, ao estabelecer os princípios básicos da comunicação humana (acentuação e nexo estruturante), a “linguagem de ação” orientou as origens e o desenvolvimento da linguagens faladas e escritas.


3: Tainha é um peixe da família dos mugilídeos, encontrado em todo o mundo e bastante valorizado no Sul do Brasil. Tal reconhecimento na região pode ser atribuído às suas características que resultam em alto valor nutritivo e comercial, e à manutenção dos fortes laços culturais entre as tradições da pesca artesanal e de pratos típicos da gastronomia regional colonial baseada no consumo da carne e da ova de tainhas.


4: O estudo de comunicação com primatas, baseado em uma versão modificada da língua dos sinais americana (ASL) e realizado desde 1976 na Universidade de Stanford (Califórnia - EUA) por uma equipe de cientistas liderada pela Dra. Penny Patterson com a gorila Koko, é talvez hoje o exemplo mais emblemático de pesquisas sobre a comunicação entre humanos e outras espécies.



REFERÊNCIAS:



CATÃO, Brisa; BARBOSA, Gabriel Coutinho. Botos bons, peixes e pescadores: sobre a pesca conjunta em Laguna (Santa Catarina, Brasil). Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Brasil, n. 69. abr. 2018.

BATESON, Gregory. Steps to an ecology of mind. Collected essays in anthropology, psychiatry, evolution, and epistemology. Northvale (NJ): Jason Aronson Inc., 1972. _____. Mind and nature: a necessary unity (advances in systems theory, complexity, and the human sciences). New York: Hampton Press, 1979.

GOW, Peter. An Amazonian Mith and his History.

TSING, Anna. “Contaminated Diversity in ‘Slow Disturbance’: Potential Collaborators for a Liveable Earth,” In: “Why Do We Value Diversity? Biocultural Diversity in a Global Context,” edited by Gary Martin, Diana Mincyte, and Ursula Münster, RCC Perspectives 2012, no. 9, 95–97.



©2018 Eduardo Galvani.


Proibida a reprodução integral sem a autorização expressa do autor.



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